sexta-feira, 17 de abril de 2020

AS CAUTELAS DE UM GATO


Cauteloso, o gato, agarrou-se ao tronco da árvore e foi subindo até aos galhos mais altos, onde se instalou. Ao quinto dia de recolhimento, deparou com o Funcionário chefe que passava por baixo e, chamou-o. Senhor Funcionário chefe, ó senhor Funcionário chefe, é cá em cima, sou eu, o gato. O Funcionário chefe, olhando para cima e, vendo o gato, sem esperar atalhou logo: O que é que foi fazer aí para cima? Se é para chamar os bombeiros para o virem tirar de lá, esqueça, eles andam bastante ocupados a transportar doentes, agora não têm tempo para gatos. Ainda assim posso ajudá-lo, indicando que o caminho que tomou para cima é o mesmo a tomar para baixo, só que desta vez é a descer. E se achar que descer é mais complicado, indico-lhe para tentar descer em espiral, assim como que em rosca. Compreende? Não, Senhor Funcionário chefe, respondeu o gato. Eu estou bem onde estou, não quero sair daqui, é que tendo avistado a passagem do Senhor aí por baixo, e tendo colhido, pelas explicações que acabou de me dar agora, que o Senhor é generoso e sabedor. Aproveitava para fazer-lhe uma pergunta: - Por que é que em Madrid e em Paris estão a padecer mais pessoas com a epidemia do que no nosso Alentejo ou no deserto do Saara? – Ora, gato, eu a perder consigo o meu precioso tempo, a ser gentil, e você vem agora com um disparate desses. Então, não lhe é óbvia a diferente densidade de habitantes? – Eu vejo bem, Senhor Funcionário chefe, não é disparate, não. Era aqui mesmo que esperava que chegássemos. Cá de cima vejo tudo e oiço tudo e, especialmente o que oiço, está a trazer-me preocupado. – E, preocupado, pela expressa intenção dos Senhores Funcionários chefes em porem a funcionar, de pressa e sem alterações, um estilo de economia cimentado, precisamente, na aglomeração intensiva de pessoas. E se, assim for, revelasse aos meus olhos que não foi percebida a lição, e que, pela precisa porta que se abriu ao erro, poça vir a entrar um grande tiro no peito. E, nesse caso digo-lhe já, que não vou sair daqui. Entro num processo de adaptação, aprendo a comer as folhas da árvore, e… cá me arranjarei.
Nisto, vinham a passar por ali dois funcionários de menor posto, e ordena-lhes o Funcionário chefe: amanhã, veem aqui, e derrubam esta árvore por incumprimento sucessivo das regras do recolher obrigatório.

15 de Abril de 2020
João Santiago 

Sem comentários:

Enviar um comentário