quinta-feira, 30 de abril de 2020

DIAS DE DESCOBERTA


São 4 horas da tarde, aquela hora do dia em que é cedo e tarde para tudo. Grande parte do dia já passou, mas outro tanto, teimosamente, ainda resiste.
Esgotaram-se as tarefas repetidas para vestir o tempo, nenhum acontecimento novo para registar, a chuva cancelou os passeios na varanda e,  por detrás de um céu de cinza, o sol aguarda para espreitar.
Resto eu e as minhas contradições, divagando numa casa demasiado grande e demasiado pequena, demasiado aberta para a rua e demasiado fechada para a vida.  
No silêncio da solidão descobri equívocos, ideias que rejeitava e agora ressurgem, realçadas pelo egocentrismo a que estes dias obrigam.
Descobri : 
- a dificuldade de rir, porque rir é um acto de alegria partilhada
- a tendência de valorizar situações que, antes, não teriam importância nenhuma
- a facilidade de acenar e mentir a um "olá tudo bem?" com a negra verdade fechada no cofre da mão
- que o tempo é grande demais e não o consigo encher por mais que esprema a imaginação 
- a inutilidade de um "diário", porque, por muito que me esforce, um dia,  ninguém vai acreditar que isto aconteceu!

Entretanto lá fora morre uma pessoa infectada a cada hora que passa, as estações de TV informam que vem aí muito calor e mostram loiros e convidativos areais, e há uma grande preocupação com o início do campeonato de futebol.
Como dizia D. Fabrizio Salina no eterno " O Leopardo" de  Tomasi de Lampedusa, "...é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma".

29 de Abril de 2020
MAlice Silva

Sem comentários:

Enviar um comentário